Decidi levantar. Estava muito embriagada e meus sentidos falhos. Minha maquiagem borrada, meus cabelos bagunçados, faltava-me um brinco, e sentia que adiara demais a ida ao banheiro. Minha bexiga estava explodindo! Corri abrindo caminho na multidão e graças a deus estava de saia. O banheiro estava um horror. As garotas são garotos sem torneira.
Saí do banheiro e só fui reparar que estava com o salto quebrado quando me aliviei. Coloquei o pé descalço naquele assoalho gelado e molhado de não se sabe o que, imaginemos que fosse água para eu me tranquilizar, e saí. Sentei novamente onde estava e fiquei esperando. Eu gostava de ficar esperando.
Naquela noite, antes que qualquer pessoa me telefonasse eu já estava vestida e pronta para sair. Minha vida é assim, os encontros eu faço por aí, não preciso de convites nem de relacionados. Cada dia é um dia, e a diferença acaba se transformando em rotina. Sabe, o tempo inteiro fugindo do normal acaba sendo tão normal, que, às vezes, eu fico me imaginando vestida num terninho social, atrás de uma mesa, atendendo clientes. Não que eu não tenha os meus, mas deve ser interessante o contato de pessoas que não te deixam marcas de dedo pelo corpo.
Mas esta é minha vida, meu querido! Não se pode mudar uma vida de uma paulistana de vinte e cinco anos. Cristalizados quatro anos de experiência. Meu Deus! Eu não sei fazer nada além de posições sexuais performáticas. Tá certo, escrevo alguns poemas, arrisquei um talento musical quando produzia testosterona em maiores quantidades, mas todo mundo acabou me fechando as portas. E a realidade é que eu enjoaria muito mais rápido de uma rotina de escritório do que desta vida esquisita.
Meus pais sonharam com o que? Advocacia, medicina, engenharia, até professor! Vai, se gosta de escrever que faça letras! Jornalismo! Fica no computador o tempo inteiro, então faz Webdesign, alguma coisa você tem que prestar!
Estou prestando. Pode-se dizer que, numa sociedade capitalista, eu sou um produto inesgotável e indispensável para todas as camadas sociais. Japonês, negro, solteiro, casado, empresário, operário, eu só não dormi com padre em minha vida. Pelo menos nenhum vestido numa batina e identificado como tal. Acho que eu não conseguiria. Talvez seja esta a minha chance de quebrar a rotina.
Já sei! Assim que decidirem encerrar o expediente, vou pra casa, tomo um banho e rumo direto à igreja. Aí tento fazer com o padre o que fiz com um pai e um filho há dois dias, uma cruzada de pernas, um decote atraente e um convite para subirmos ao quarto mais aconchegante do hotel. Foi meio nojento ouvir o velho torcendo pelo garoto no momento de nossa intimidade, mas tudo é festa, tudo é farra.
Uma luz forte se acende no salão. Aquilo é como um alarme pros insetos presentes. Correm como formigas e aos poucos vão todos desaparecendo. Sinto gosto de sêmen na minha boca, mas não me lembro de ter engolido nada. Como de costume, sou a última a deixar o puteiro.

Escrito por Ricardo Celestino.
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Parece rasgação de seda, mas é que o menino tem talento! Pelo que sei, isso faz parte do Lipstick Killer, um romance que Richard The Drummer está escrevendo. Eu tenho aqui algumas páginas e a história está indo num ritmo bem interessante.
Gosto da literatura como um mero apreciador, arrisco meus contos, alguns poemas esdrúxulos, rabiscados em papéis pelo banheiro, mais como uma forma de penetrar nessa sensação de escritor do que como uma mídia a seguir. Acho fundamental a literatura, por mais injustiçada que ela seja, se os escritos tratarem das coisas reais, dos sabores escondidos, dos segredos sussurrados nos becos noturnos. De longe, a forma de expressão mais livre e libertária. De outro a mais solitária. Existe alguma lei de incentivo à literatura? E, se esta existisse, será que beneficiaria mais aqueles que já estão no topo (como acontece em Cinema)?
O que eu gosto dos textos do Ricardo é a forma que trata com sinceridade os temas que aborda, sendo o submundo ou as raízes tupiniquim, sem se perder em chatices dos olhares pequeno burgueses que parecem estar em alta nos dias de hoje. Ele realmente viveu aquilo que escreve, mesmo se o escrito é de algo que viu e observou a distância. É o que eu pretendo fazer no cinema. É o que todos deveriam fazer.
Estou imensamente curioso para saber onde este romance vai chegar. Manda bala aí, meu velho Richard!
Aproveito para deixar meu carinho e sorte para meu querido amigo Ciro Ciro que está indo mochilar pelas bandas da Europa. Ele vai ver o The Damned ao vivo (cuzão! Hahahaha). Já fiz minha listinha das coisas que quero e, assim que ele retornar, nos banharemos no álcool! Vai lá Cirots, mande lembraças ao David Vanian, ao Eric Rohmer e ao Bruno Aleixo!
Fiquem bem, todos bem.
Erick Martorelli lê Robert Mussil “O Jovem Törless”, escuta Wavves “Wavvves” e assiste Nicolas Roeg "Don’t Look Now".